Tenho pressa, levita o panfleto que tomou olhares e destes os fez expectadores de uma jornada sem musicalidade. O garoto praticando malabares e mantendo a chances em viver por movimentos circenses. Os vidros se calam, e o mundo lhe diz que maltrapilhos nem valhem trocados na palma das mãos. Calejo a necessidade de não tê-la, mas prolongar algo que não há sentido, dizer em trezentas palavras não contabilizando os parágrafos sem pontos, mais de mil vírgulas respirando por mim, pausando nos piscares intensos, subterfúgios singelos dos olhares. E o panfleto ganha o chão, o abanar de mãos ao vento sem remo, e o desejo em mergulhar nessa ausência gravitacional. Com as letras borradas, sobrevivente das chuvas e as beiradas dos becos, percorrendo o mundo e nenhuma alma disposta á lê-lo. A garota corre para socorrê-lo enquanto a travessa o movimento pulsante das rodas sem freios, uma troca de luzes, sem arco-íris, sem trovões poéticos, do vermelho para o verde, do verde para o reto. Era assim o trajeto, reto e sem piruetas voláteis, o duro pisar das pedras, a pele se arranhando em tropeços curtos e levantando-se mais feroz que o tombo. Mas vede o panfleto querido, antes que dobre a esquina, se joga no vidro daquele carro e se engole por completo.
- A primeira coisa que adquiri sem ajuda de capital, fora um livro de contos. – Olhei mais um pouco para cima, com os braços cruzados sob a nuca e sacolejando a poeira de mim – Não acreditei de primeira que era eu que tomaria aquilo, mal recordo a cor da capa, o autor, nem gênero, nem o eu - lírico. O ganho era o livro, e eu tinha uns… Dez anos. – Encarei-o – Não sei por que não o guardei.
- E o ganhou por quê? – Ele estava na mesma posição que eu, um pouco zonzo, um pouco longe, ao meu lado.
- Um concurso de poesia. Sabe, não era sorte, não era simplesmente um cupom que colocávamos na urna e torcíamos os dedos. Na realidade nem tinha contato com essas regras neuróticas de métrica e movimentos literários. Minha inspiração era bruta e sem fins lucrativos. Mas, lucrei.
- Quanto?
- Não me refiro em notas – encurtei o sorriso prático – sinalizo o quanto adquiri de mim. Eu me peguei esses tempos relendo alguns versos, abobalhados, inutilizados por qualquer escritor que se denomine criador de si. Você sabe, meus escritores favoritos dissertavam em folhas de pão, que fim lucrativo há nisso? Nada, absolutamente a ânsia de praticar uma arte sem público. Eu não pretendo ter estabilidade financeira sólida, autores não buscam isso.
A noite desceu em uma fina cascata retilínea, e junto disso, prostrou-se o ínterim.
- E o que busca? – Algumas pessoas que sistematicamente nos interam e atentam-se nas laterais que nossas mãos projetam sombras. Há pessoas que sabem jogar a pergunta correta no momento único. Como um único tiro, sem chances adicionais, aquele seria o prestígio da vitória e as lágrimas de azedume, caso errasse. E nunca caem. A pergunta certa vem da pessoa certa.
- Não sei, é por isso que não me considero escritora, nem nada.
- Quer voltar?
- Ainda não.
- Quando saberá a hora de retorno?
- Eu nunca sei – levantei sem esforços da grama e pus-me a mirá-lo sem vocativos.
- Eles devem ter parado a discussão, seus pais devem estar á sua espera.
- Eles nunca param – pressionei a nuca – mas eles sempre tem que acordar cedo. Então, vem o sono – suspirei
- Qual o caminho? Por lá – apontou para um lado – Ou por cá? – o oposto.
- Não sei.
- Nunca sabe de nada hum? – não soou sarcástico, mas deveria.
- Essa é a minha certeza.
Então, outro panfleto ganhou o círculo da praça. Ninguém o retirou no graveto seco. Ninguém o leu também, era apenas uma rajada de movimentos, sem feitos visuais castigando-o por abordá-los no meio do sono. Eu queria ser um panfleto querido, mas conformava-me nos restos de papéis de pães. Eu sempre tenho pressa, nunca um lugar.
(Source: exilios)
#tempodepipa
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infertil said:
Mano, sério, criei um fanatismo pela tua escrita que nem consigo explicar o porquê. Simplesmente, criei e ponto. E fora que esta narrativa é genial do começo ao fim, e os diálogos, bem, impecáveis. Parabéns.
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quebraroutroespelho said:
LINDAAAAAAAA PQP
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