talvez seja esse o fato, de nunca deixarmos de termos medo, mas deixamos de sermos sozinhos, talvez.

 

Serei sempre o que esperou que lhe abrissem a porta ao pé de
uma parede sem porta.


Álvaro de Campos

o abraço

 

(modo de usar)
erguer os corpos
brindar os laços
inspirar as bolhas

(indicação)
balão de oxigênio para pulmões em baixa

(efeito colateral)
nuvens e estrelas na linha da aorta e um torvelinho de sol
lembrando que a tristeza é uma maçaneta sem porta

Ehre

hi?

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meu amor, me perdoe se não possuo qualquer resquício de tabaco nos trajes, e ainda sim a tristeza escolheu-me para morar. Perdoe-me se não digo que estou exausta, ainda que eu permaneça em silêncio por dias inteiros. É que mamãe sempre me disse que quando papai chegava bêbado nas sextas-feiras, devíamos nos calar, assim ele não ficaria tão fora de si. Encarei isso como um ato religioso, e desde então só sei ficar em mim. Meu bem, eu quero voltar.

Anonymous asked: como você está sumida?

num abismo.

é mais bonita a infinita sede de escrever, do que consumar o ato. é mais bonito essa vontade de amar, do que amar por si. não sei meu bem, parece que no momento que os pensamentos tocam o mundo as flores fenecem e perduro essa imensa solidão de ter o que não sou. 

quero um amor francês meu amor, não me importa a nacionalidade dos olhos, os lábios são os mesmos. Mas os franceses sabem bem o quão valioso são as madrugadas. Eles não dormem. Eles amam sussurrando medos porque ninguém pode espiá-los. Os medos não são ditos. Quero um amor em que possa agarrar a gola da camisa. Um aroma de café e pareça outra manhã cinza. Não tão cinza porque ainda posso vislumbrar um segredo nos seus calos. Os calos são nossos bolsos. Onde guardamos dos dramas mais remotos porque o mundo não nos pertence. Eu não quero que você saiba meu nome, meu bem, mas que diga os defeitos mais febris entre uma rajada de vento e eu negue com uma risada terminal. Será nosso segredo, as alegrias ensaiadas serão nossos segredos – nossos. Tenho um livro perto das camisas lavadas, peguei-o pela capa triste. Entendo que não se julguem livros pelas capas, mas alegrias não se adequam a risos e mesmo assim rimos como se nós nos tivéssemos – eu sempre rio nos finais.

boa noite